Das coisas inusitadas do dia a dia,
Hoje, ainda nem tinha Sol,
vi um cachorro,
desses que encantam,
sem pedigree, sem coleira, rabinho abanando,
todo encolhido por conta do frio
E que frio, hein, cidade?
Das coisas que se vê no dia a dia,
Esse cachorro era inusitado
porque se abrigava do frio
em pleno vagão lotado
do metrô de São Paulo.
Quem sabe chegasse na Barra Funda,
mas às 7h35min foi descoberto
porque latiu para uma senhora que lhe oferecera biscoitos.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Do outeiro
Por sete anos subira a escadaria da Igreja da Penha de joelhos. Calos purulentos como estandarte de um corpo suplicante, marcado pela dor de ser seca. Não podia gerar e por isso fizera a promessa que durante anos vinha pagando. Penando. Subindo e descendo vazia.
Conheceu um médico. O décimo. Prometeu-lhe um filho no ventre nos próximos seis meses ou poderia cometer uma loucura em nome dele. Tripudiar-lhe a reputação. Seis meses e um filho. Que tivesse fé. O cheque descontaria em 30 dias: trezentos e trinta reais.
Cessou a romaria e passou a costurar. Horas, dias, novelo em mãos fiando o sonho de enfim acalentar um rebento seu.
Tempo findo, e as primeiras horas da manhã limítrofe. Levantou-se, ventre em dores; era hora de partir. Parir? À porta, mala pronta, casaquetos e pagãos. Dois: um vermelho, outro azul. A imagem da santa a tiracolo e a agulha de tricô.
No caminho, ao ouvido, pululavam palavras de alguém, um mantra pessoal: “A fé remove montanhas, minha fia. E não costuma faiá”. Sabia.
Uma rápida passagem no Outeiro da Glória era a única exigência que fizera antes do destino final.
Hora exata, lá o médico. Sono nos olhos, branco impecável, impaciente.
Aproximou-se dela como se a fosse examinar, mas temeu.
Ajoelharam-se em reverência, mas ela de um salto pôs-se em pés. Benzeu-se e, de um só golpe, em meio a palavras desconexas, atingiu-o na cabeça. Certeira. A imagem da santa como tacão. O corpo, sepultou-o empurrando montanha abaixo. Resoluta.
Depositou a pequena mala do desejado ao pé do altar.
Foi neste mesmo dia que converteu-se com devoção à falta de fé.
terça-feira, 25 de maio de 2010
versinhos à Diná!
com vozes de outrora compõe frases hodiernas,
tem voz mansa e fala bonito.
pretérito mais-que-perfeito composto, porque o simples é deveras simples
se puderes alcançá-la
ser-lhe-às grato pela vida afora...
Alvíssaras, a Língua Portuguesa a ti rende louvores!
tem voz mansa e fala bonito.
pretérito mais-que-perfeito composto, porque o simples é deveras simples
se puderes alcançá-la
ser-lhe-às grato pela vida afora...
Alvíssaras, a Língua Portuguesa a ti rende louvores!
sexta-feira, 14 de maio de 2010
subway day by day
A caminho do trabalho, condução lotada como de costume
cidade grande é mesmo assim, acostuma-se com tudo
um senhor posiciona-se à minha frente,
parece que vai descer na próxima estação.
o trem para e ele lá fica, estagnado
pensei que descia mas não ousa fazê-lo
atrapalha-me a saída:
que estupidez, meu senhor!
estar assim gratuitamente a atrapalhar a passagem alheia?
desço, enfim.
o trem segue e a cidade para.
o senhor que me atrapalhara a descida sorri...
ouvir não pode pois lhe faltam os tímpanos.
cidade grande é mesmo assim, acostuma-se com tudo
um senhor posiciona-se à minha frente,
parece que vai descer na próxima estação.
o trem para e ele lá fica, estagnado
pensei que descia mas não ousa fazê-lo
atrapalha-me a saída:
que estupidez, meu senhor!
estar assim gratuitamente a atrapalhar a passagem alheia?
desço, enfim.
o trem segue e a cidade para.
o senhor que me atrapalhara a descida sorri...
ouvir não pode pois lhe faltam os tímpanos.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Acelerou!
Brigavam todos os dias.
Sorriam para os vizinhos.
Comiam feito animais.
E o tempo passava lentamente...
Choravam escondido um do outro.
Sentiam saudades dos tempos bons.
Dormiam feito estranhos.
E o tempo passava lentamente...
Amavam as coisas.
Trabalhavam no mesmo lugar.
Dançavam sempre músicas iguais.
E o tempo passava lentamente...
Um dia resolveram mudar.
Em muitos aspectos: passaram a comer vagarosamente, a sorrir um para o outro, a dormir abraçadinhos...
E o tempo acelerou!
Sorriam para os vizinhos.
Comiam feito animais.
E o tempo passava lentamente...
Choravam escondido um do outro.
Sentiam saudades dos tempos bons.
Dormiam feito estranhos.
E o tempo passava lentamente...
Amavam as coisas.
Trabalhavam no mesmo lugar.
Dançavam sempre músicas iguais.
E o tempo passava lentamente...
Um dia resolveram mudar.
Em muitos aspectos: passaram a comer vagarosamente, a sorrir um para o outro, a dormir abraçadinhos...
E o tempo acelerou!
sábado, 10 de abril de 2010
De duas vidas, uma se fez!
Eram mais do que amantes, amigos, enfim
Eram um só, nada mais!
Queriam-se em afinidades tais
deitavam-se em verdes paisagens oníricas
Sonhavam que eram pássaros a ganhar os céus dos céus... e assim o eram.
Pensavam em todos, lembravam de si
Corriam em muitos ideais, e não tinham nenhum ao mesmo tempo
E o tempo passava, os envolvia, consumia...
De duas vidas, uma se fez!
e encheu-se o lar da mais tenra alegria
E o mundo todo abençoou a celebração da vida,
que quanto mais se multiplica, mais se torna una...e única!
Eram mais do que amantes, amigos, enfim
Eram um só, nada mais!
Queriam-se em afinidades tais
deitavam-se em verdes paisagens oníricas
Sonhavam que eram pássaros a ganhar os céus dos céus... e assim o eram.
Pensavam em todos, lembravam de si
Corriam em muitos ideais, e não tinham nenhum ao mesmo tempo
E o tempo passava, os envolvia, consumia...
De duas vidas, uma se fez!
e encheu-se o lar da mais tenra alegria
E o mundo todo abençoou a celebração da vida,
que quanto mais se multiplica, mais se torna una...e única!
sexta-feira, 26 de março de 2010
Crise II
A vida dele se resumia a duas coisas:
trabalho era a primeira,
a vida toda, a outra coisa.
Trabalhava feito louco,
dia e noite, sem descanso
E a vida, a outra, levava...
Veio a crise, de mansinho
E levou-lhe tudo de uma vez
A vida que pensava ter,
e o trabalho que o fazia viver.
trabalho era a primeira,
a vida toda, a outra coisa.
Trabalhava feito louco,
dia e noite, sem descanso
E a vida, a outra, levava...
Veio a crise, de mansinho
E levou-lhe tudo de uma vez
A vida que pensava ter,
e o trabalho que o fazia viver.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Silêncio de olhos verdes
Silêncio
de olhos verdes
Era
uma viagem normal. Ao menos, parecia normal. Passagem comprada e logo estaria
de volta, em casa, depois de um fim de semana esplêndido na companhia dos
amigos. Especialmente pela companhia daquele amigo.
Feliz.
Estava realmente feliz ao se acomodar na poltrona de número 10, perto da porta,
longe do banheiro, na fileira do motorista, como lhe ensinara a avó.
Porta
fechada e as instruções.
Primeira
etapa da viagem, tudo em paz. O motorista cantarolava uma canção conhecida,
muito antiga. Por vezes, assobiava. O ônibus era confortável, reclinava quase
como um leito; perfeito!
Ouvia
músicas quando de repente ouviu um ruído que parecia indicar que aquilo tudo
era um sonho. E que era hora de acordar.
--
Foi o tambor. Tenho certeza que foi o tambor. – repetia o motorista levando as
mãos à cabeça.
Desceram todos, ela inclusive, no meio da
estrada, o sol a pino e um ônibus quebrado na beira da estrada.
Em solidariedade ao motorista, outros ônibus
paravam e ofereciam carona aos pobres desalentados.
Pouco
a pouco, sumiram os outros. Na vez dela, parou um ônibus esquisito,
visivelmente velho e mal cuidado. Hesitou. Pensou, porém, que ainda iria
trabalhar naquele mesmo dia que já apontava sua segunda metade e decidiu
embarcar assim mesmo.
Estava
certa, o ônibus era péssimo! Já rodava há 3 dias, vinha de longe, muito longe e
não cheirava bem...
Não
por culpa das pessoas, mas é que ônibus que roda há mais de 1 dia na estrada,
sem parar, não pode mesmo cheirar bem.
Aproximou-se
de um banco vazio. Ao lado, uma senhora de olhos verdes e lenço na cabeça a
olhava como se a esperasse há muito. Pediu licença e sentou-se. Acomodou-se
como pôde, sentiu dificuldade extrema em acomodar suas longas pernas mas
conseguiu, enfim, se ajeitar.
Ao
lado, a senhora a olhava, fixamente como quem deseja perguntar algo. Ninguém
sabe porquê, mas ela nada dizia.
Aquele
silêncio complacente ia-lhe corroendo o
espírito, mas nada podia fazer a não ser esperar.
Esperou.
Esperou e repetiu a espera.
A
viagem chegou ao fim. A senhora, a olhá-la fixamente como quem deseja perguntar
algo.
Não
houve pergunta. O ônibus parou, todos desceram. A senhora de olhos verdes
também e, com um sorriso e um aceno, já ao longe, tentou enfim lhe dizer o que
tanto a angustiara a viagem toda...
Não o
pôde. A família que a aguardava no desembarque, sufocou-a com uma chuva de
beijos e abraços infindos. Era uma festa linda de se ver, em plena rodoviária.
Todo
aquele silêncio, já de malas nas mãos, a fez olhar para trás pela última vez.
Percebeu
então que havia uma semelhança muito grande entre uma menina que abraçava a
senhora e sua própria imagem, embora aquela parecesse bem mais magra e alegre
que ela, dadas as circunstâncias da penosa viagem.
E foi
assim que o silêncio sem fim teve, ao menos, explicação.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
1 quarenta e cinco avos
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Conta outra...
Não acredite em amores que se vão,
que esmaecem, que findam, que nunca mais são...
Isso nem de longe é amor, ou coisa que o valha!
Chegou de mansinho, mandando flores, até... como quem tenta se convencer de que é alguém digno de confiança. A confiança, essa já fora quebrada há anos e não havia mesmo jeito de atá-la novamente. Impossível.
Mandou vinte e-mails, escreveu comentários no blogue, ligou na casa dos antigos amigos em comum, tudo em busca de uma pista, sequer... em vão! Apareceu na antiga casa dela, falou com o vizinho (que já era mais o mesmo da época em que eles namoraram) que não pode ajudar: nunca ouvira falar dessa menina.
Mandou mais e-mails, insistiu...quem sabe ela respondesse? Nada.
Sentou no lugar de outrora, já não havia mais brilho nem esperança... Acendeu um cigarro, pela primeira vez na vida, e se sentiu melhor. Depois tossiu, discretamente, mas tossiu...pigarreou, melhor dizendo. Abriu o caderno de anotações que trazia no bolso, tentou lembrar-se de alguém pra quem pudesse ligar, ao menos alguém saberia dizer onde encontrar aquela que supunha ser a mulher da sua vida...nada!
Voltou pro hotel onde estava hospedado. Arrumou as malas. Pagou a conta na recepção e chamou o táxi. Foi pro aeroporto, comprou a passagem e esperou o avião por uma hora.
Chorou bastante. Sentiu raiva de si mesmo. "se não tivesse sido tão burro..." e milhões de outros "se" lhe engarrafaram a mente.
Ao embarcar, lembrou que na última página do velho caderninho havia um número que não havia ligado...quem sabe nesse, pensou...Última tentativa, ligou do celular mesmo, ávido, ansiedade espalhada por todo o corpo. Nada. Ninguém atendeu.
Embarcou com destino ao país distante de onde viera...
Tarde demais: Perdera o amor da sua vida!
Desembarcou. Fazia um frio causticante na sua terra natal.
No aeroporto, com flores na mão e uma garrafa de vinho tinto, o esperavam a esposa e os dois filhos. Finalmente o papai voltara da viagem de negócios que o levara por um mês inteiro àquele país distante cujo nome eles nem sabiam pronunciar direito...
que esmaecem, que findam, que nunca mais são...
Isso nem de longe é amor, ou coisa que o valha!
Chegou de mansinho, mandando flores, até... como quem tenta se convencer de que é alguém digno de confiança. A confiança, essa já fora quebrada há anos e não havia mesmo jeito de atá-la novamente. Impossível.
Mandou vinte e-mails, escreveu comentários no blogue, ligou na casa dos antigos amigos em comum, tudo em busca de uma pista, sequer... em vão! Apareceu na antiga casa dela, falou com o vizinho (que já era mais o mesmo da época em que eles namoraram) que não pode ajudar: nunca ouvira falar dessa menina.
Mandou mais e-mails, insistiu...quem sabe ela respondesse? Nada.
Sentou no lugar de outrora, já não havia mais brilho nem esperança... Acendeu um cigarro, pela primeira vez na vida, e se sentiu melhor. Depois tossiu, discretamente, mas tossiu...pigarreou, melhor dizendo. Abriu o caderno de anotações que trazia no bolso, tentou lembrar-se de alguém pra quem pudesse ligar, ao menos alguém saberia dizer onde encontrar aquela que supunha ser a mulher da sua vida...nada!
Voltou pro hotel onde estava hospedado. Arrumou as malas. Pagou a conta na recepção e chamou o táxi. Foi pro aeroporto, comprou a passagem e esperou o avião por uma hora.
Chorou bastante. Sentiu raiva de si mesmo. "se não tivesse sido tão burro..." e milhões de outros "se" lhe engarrafaram a mente.
Ao embarcar, lembrou que na última página do velho caderninho havia um número que não havia ligado...quem sabe nesse, pensou...Última tentativa, ligou do celular mesmo, ávido, ansiedade espalhada por todo o corpo. Nada. Ninguém atendeu.
Embarcou com destino ao país distante de onde viera...
Tarde demais: Perdera o amor da sua vida!
Desembarcou. Fazia um frio causticante na sua terra natal.
No aeroporto, com flores na mão e uma garrafa de vinho tinto, o esperavam a esposa e os dois filhos. Finalmente o papai voltara da viagem de negócios que o levara por um mês inteiro àquele país distante cujo nome eles nem sabiam pronunciar direito...
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Bateu asas e voou...
Àqueles que dedicaram a vida em prol dos desvalidos,
Aos que amaram mais do que a alma podia suportar,
A todos os que se doaram e se deixaram gastar por amor e tão somente por amar...
A eternidade vos espera!
"Pense no Haiti, reze pelo Haiti!" (Caetano Veloso)
Aos que amaram mais do que a alma podia suportar,
A todos os que se doaram e se deixaram gastar por amor e tão somente por amar...
A eternidade vos espera!
"Pense no Haiti, reze pelo Haiti!" (Caetano Veloso)
Médica Veterinária
—Tá decidido! Vou fazer Veterinária!
Foi assim que num final de tarde, com um acinte súbito, sob os olhares atentos da mãe que lhe penteava a longa cabeleira já não tão embolada, que a menina de uns 17 anos terminou a conversa ao telefone. Falava com a melhor amiga sobre o vestibular quando tivera a grande ideia de prestar Medicina Veterinária. A mãe, não sem razão, se viu dividida entre sentimentos de felicidade e espanto, afinal na família quase ninguém havia sequer terminado o Ensino Médio. Dos que cursaram a universidade havia só um tio, dado às coisas da lei, que por haver concluído com louvor o primeiro período do curso de Direito se julgava perito no Código Civil, seu livro de cabeceira há anos.
Não tinha a intenção de ser o exemplo de ninguém; decerto isso nem lhe passou pela cabeça uma vez que em casa não costumavam lhe dar muito crédito.
Os dias se seguiram preguiçosamente. Nas aulas da escola sempre o mesmo ritual: sentava-se ao pé da professora, abria livros e cadernos e, de uma maneira que só ela sabia fazer, ajeitava-se confortavelmente sobre os dois braços e nesta posição permanecia por quase toda a aula. Tudo exatamente igual: a escola, as aulas, a mesa bem pertinho da professora, os livros e a ideia fixa de ser veterinária.
Na manhã da prova do vestibular, a menina acordou cedo. Mais cedo do que costumeiramente, é verdade, mas havia um brilho em seus olhos, o que parecia uma coisa boa.
Chegou rápido ao local. Acomodou-se na sala e achou graça ao perceber outros rostinhos jovens como o seu, repletos de sonhos e boas intenções, sedentos por começar a construir um futuro de paz e felicidade tão logo ultrapassassem o teste que dali uns minutinhos estaria sobre a mesa de cada um. Uma prova. Uma única prova a separava do sonho de ser veterinária. Parecia tão fácil...
O fiscal distribuiu as provas. Como na sala de aula, a menina separou lápis e canetas, passou os olhos naqueles papéis ─que aos poucos começavam a não fazer o menor sentido─ ajeitou-se confortavelmente sobre os dois braços entrecruzados em cima da mesa e, como que cumprindo um ritual de todas as manhãs, deitou a cabeça adornada pela longa cabeleira e assim permaneceu. Ao soar a campainha que apontava a entrega das provas ao fiscal, a menina levantou-se, limpou o rosto, juntou seus pertences e foi pra casa. Seguia sorridente e ainda acalentava o sonho de ser médica veterinária...
Foi assim que num final de tarde, com um acinte súbito, sob os olhares atentos da mãe que lhe penteava a longa cabeleira já não tão embolada, que a menina de uns 17 anos terminou a conversa ao telefone. Falava com a melhor amiga sobre o vestibular quando tivera a grande ideia de prestar Medicina Veterinária. A mãe, não sem razão, se viu dividida entre sentimentos de felicidade e espanto, afinal na família quase ninguém havia sequer terminado o Ensino Médio. Dos que cursaram a universidade havia só um tio, dado às coisas da lei, que por haver concluído com louvor o primeiro período do curso de Direito se julgava perito no Código Civil, seu livro de cabeceira há anos.
Não tinha a intenção de ser o exemplo de ninguém; decerto isso nem lhe passou pela cabeça uma vez que em casa não costumavam lhe dar muito crédito.
Os dias se seguiram preguiçosamente. Nas aulas da escola sempre o mesmo ritual: sentava-se ao pé da professora, abria livros e cadernos e, de uma maneira que só ela sabia fazer, ajeitava-se confortavelmente sobre os dois braços e nesta posição permanecia por quase toda a aula. Tudo exatamente igual: a escola, as aulas, a mesa bem pertinho da professora, os livros e a ideia fixa de ser veterinária.
Na manhã da prova do vestibular, a menina acordou cedo. Mais cedo do que costumeiramente, é verdade, mas havia um brilho em seus olhos, o que parecia uma coisa boa.
Chegou rápido ao local. Acomodou-se na sala e achou graça ao perceber outros rostinhos jovens como o seu, repletos de sonhos e boas intenções, sedentos por começar a construir um futuro de paz e felicidade tão logo ultrapassassem o teste que dali uns minutinhos estaria sobre a mesa de cada um. Uma prova. Uma única prova a separava do sonho de ser veterinária. Parecia tão fácil...
O fiscal distribuiu as provas. Como na sala de aula, a menina separou lápis e canetas, passou os olhos naqueles papéis ─que aos poucos começavam a não fazer o menor sentido─ ajeitou-se confortavelmente sobre os dois braços entrecruzados em cima da mesa e, como que cumprindo um ritual de todas as manhãs, deitou a cabeça adornada pela longa cabeleira e assim permaneceu. Ao soar a campainha que apontava a entrega das provas ao fiscal, a menina levantou-se, limpou o rosto, juntou seus pertences e foi pra casa. Seguia sorridente e ainda acalentava o sonho de ser médica veterinária...
sábado, 15 de agosto de 2009
Dois mais um que não formaram três...
Aquele dia começara diferente.
Soltos os cabelos, algumas unhas quebradas, olheiras que se viam há quilômetros... Ela seguia firme, com passos reticentes em direção ao banheiro, primeira parada de sua jornada pós-despertar. Dentes escovados, cabelos alinhados com dificuldade, cremes diurnos, loções e pílulas... cada qual saltava ordenadamente de seus respectivos frascos e compartimentos e ajudavam a compor aquela mulher diante do espelho do banheiro. Ela instava, não se reconhecia ali...
Há algumas horas tinha a certeza de ser a mais feliz das mulheres. E tinha sorrido tanto aquela noite... Sorrisos doces e exclusivos, afinal, a felicidade lhe tinha sido tangível por meses a fio nos últimos anos; acreditava realmente que era possível ser feliz!
Debaixo da água fria e impiedosa do chuveiro ela se despedia das lembranças felizes de outrora. Esvaíam-se ralo abaixo os resquícios daquela que um dia acreditou ser feliz... A mais feliz de todas!
No sofá, envolto em um sono pesado estava o sobrinho de seu marido, um adolescente de pouco mais de dezessete anos. Do outro lado da cidade, há poucas horas de casa, o marido, que em algumas horas regressaria ao lar depois de mais uma de suas conferências.
Era o seu mundo: o Amor. Havia desabado há algumas horas, antes do comprimido de Prozac e da Vodca pra acompanhar e forçar um sono de fuga. Fora inadvertidamente desalojada do abrigo que construíra com esmero para morar sob a égide do Amor... não teve chance de defesa, fora um golpe súbito, impiedoso e certeiro. Ela rendeu-se na hora. Não tinha como reagir, nem sabia como fazê-lo...
Precisava trabalhar, ainda que não soubesse como faria para chegar no escritório sem despertar a curiosidade e as perguntas indiscretas dos colegas.
Vestiu-se de preto, dos pés à cabeça. Sentia que a realidade aos poucos se acercava dela, em breve tudo voltaria ao normal...
Saiu e foi trabalhar.
Trabalhou o dia todo. Mal se lembrava do que ocorrera na noite anterior, parecia a mesma mulher de sempre, cheia de felicidade...
Voltou pra casa no fim do dia. A casa era a mesma, tudo estava no mesmo lugar. Ela dirigiu-se ao banheiro, despiu-se daquele luto, limpou o rosto, banhou-se em águas mornas, quase quentes, e retornou ao quarto...
Ali, tentando conter o flashback que insistia em rodar na sua mente, finalmente desatou um choro contido por 24 horas a fio. Chorou tudo o que podia, com toda a força que pensava ter.
Em meio a tantas lágrimas o marido a surpreendeu. Ostentando um buquê de rosas vermelhas, queria saber o motivo da aparente tristeza daquela a quem dedicara, durante os dez anos de casamento, todo o Amor que já pudera oferecer a alguém na vida... Ele a amava mais que tudo na vida e ela sabia disso!
Ela desconversou. Não queria dividir com seu homem o que sentia...não depois de tantos anos...
Talvez tivesse vergonha, talvez lhe faltasse coragem... Não queria dizer e pronto!
Na verdade não sabia como dizer àquele homem, a quem tinha dedicado a última década de sua vida com tanto afinco, que, numa noite, com luar de prata e céu pontilhado de estrelas, havia se apaixonado pela primeira vez! Era um menino imberbe, com ar juvenil e voz de quem faz promessas que nem sabe se vai cumprir... não sabia nem mesmo como dizer que consumara esse Amor num arroubo de paixão e dele não conseguia mais se apartar porque lhe fazia bem demais, bem demais...
.....................................................................................
Soltos os cabelos, algumas unhas quebradas, olheiras que se viam há quilômetros... Ela seguia firme, com passos reticentes em direção ao banheiro, primeira parada de sua jornada pós-despertar. Dentes escovados, cabelos alinhados com dificuldade, cremes diurnos, loções e pílulas... cada qual saltava ordenadamente de seus respectivos frascos e compartimentos e ajudavam a compor aquela mulher diante do espelho do banheiro. Ela instava, não se reconhecia ali...
Há algumas horas tinha a certeza de ser a mais feliz das mulheres. E tinha sorrido tanto aquela noite... Sorrisos doces e exclusivos, afinal, a felicidade lhe tinha sido tangível por meses a fio nos últimos anos; acreditava realmente que era possível ser feliz!
Debaixo da água fria e impiedosa do chuveiro ela se despedia das lembranças felizes de outrora. Esvaíam-se ralo abaixo os resquícios daquela que um dia acreditou ser feliz... A mais feliz de todas!
No sofá, envolto em um sono pesado estava o sobrinho de seu marido, um adolescente de pouco mais de dezessete anos. Do outro lado da cidade, há poucas horas de casa, o marido, que em algumas horas regressaria ao lar depois de mais uma de suas conferências.
Era o seu mundo: o Amor. Havia desabado há algumas horas, antes do comprimido de Prozac e da Vodca pra acompanhar e forçar um sono de fuga. Fora inadvertidamente desalojada do abrigo que construíra com esmero para morar sob a égide do Amor... não teve chance de defesa, fora um golpe súbito, impiedoso e certeiro. Ela rendeu-se na hora. Não tinha como reagir, nem sabia como fazê-lo...
Precisava trabalhar, ainda que não soubesse como faria para chegar no escritório sem despertar a curiosidade e as perguntas indiscretas dos colegas.
Vestiu-se de preto, dos pés à cabeça. Sentia que a realidade aos poucos se acercava dela, em breve tudo voltaria ao normal...
Saiu e foi trabalhar.
Trabalhou o dia todo. Mal se lembrava do que ocorrera na noite anterior, parecia a mesma mulher de sempre, cheia de felicidade...
Voltou pra casa no fim do dia. A casa era a mesma, tudo estava no mesmo lugar. Ela dirigiu-se ao banheiro, despiu-se daquele luto, limpou o rosto, banhou-se em águas mornas, quase quentes, e retornou ao quarto...
Ali, tentando conter o flashback que insistia em rodar na sua mente, finalmente desatou um choro contido por 24 horas a fio. Chorou tudo o que podia, com toda a força que pensava ter.
Em meio a tantas lágrimas o marido a surpreendeu. Ostentando um buquê de rosas vermelhas, queria saber o motivo da aparente tristeza daquela a quem dedicara, durante os dez anos de casamento, todo o Amor que já pudera oferecer a alguém na vida... Ele a amava mais que tudo na vida e ela sabia disso!
Ela desconversou. Não queria dividir com seu homem o que sentia...não depois de tantos anos...
Talvez tivesse vergonha, talvez lhe faltasse coragem... Não queria dizer e pronto!
Na verdade não sabia como dizer àquele homem, a quem tinha dedicado a última década de sua vida com tanto afinco, que, numa noite, com luar de prata e céu pontilhado de estrelas, havia se apaixonado pela primeira vez! Era um menino imberbe, com ar juvenil e voz de quem faz promessas que nem sabe se vai cumprir... não sabia nem mesmo como dizer que consumara esse Amor num arroubo de paixão e dele não conseguia mais se apartar porque lhe fazia bem demais, bem demais...
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Uma tarde de verão no inverno paulistano...
O sol se pôs lentamente;
Parecia se dissipar nas nuvens negras da poluição do lugar sem querer ser notado,
Parecia não querer incomodar...
As músicas na rádio lembravam uma tarde de verão no litoral:
Quentes, alegres, brasileiramente populares
O cheiro de chão quente, asfalto em combustão, lembrava dias de extremo calor...
Mas era inverno. E inverno paulistano.
O sol se pôs lentamente.
(Ou quem sabe em ritmo normal, e eu não o percebi? Talvez...)
O certo é que visitara a província dos homens que trabalham como se fora um convidado ilustre
E conferiu àquela tarde um tom de verão carioca.
O sono coletivo da casa,
O balançar de ondas que distam mais de cinco centenas de quilômetros,
O cheiro de coisas prestes a acontecer,
A sensação de que tudo vai dar certo...
Traços típicos de uma tarde de verão no litoral...
Mas era inverno. E inverno paulistano.
Ao cair do dia,
Noticias do radar da CBN: quilométricos congestionamentos, metrôs lotados, e muita gente de volta aos lares...
Uma garoa fininha a escorrer pela mesma janela que outrora abrigara os raios do sol,
Umidade relativa do ar baixíssima, e a tosse seca, problemas respiratórios, e a tristeza, e o frio... e que frio...
A tarde se foi. Era mesmo noite de inverno. E inverno paulistano.
Parecia se dissipar nas nuvens negras da poluição do lugar sem querer ser notado,
Parecia não querer incomodar...
As músicas na rádio lembravam uma tarde de verão no litoral:
Quentes, alegres, brasileiramente populares
O cheiro de chão quente, asfalto em combustão, lembrava dias de extremo calor...
Mas era inverno. E inverno paulistano.
O sol se pôs lentamente.
(Ou quem sabe em ritmo normal, e eu não o percebi? Talvez...)
O certo é que visitara a província dos homens que trabalham como se fora um convidado ilustre
E conferiu àquela tarde um tom de verão carioca.
O sono coletivo da casa,
O balançar de ondas que distam mais de cinco centenas de quilômetros,
O cheiro de coisas prestes a acontecer,
A sensação de que tudo vai dar certo...
Traços típicos de uma tarde de verão no litoral...
Mas era inverno. E inverno paulistano.
Ao cair do dia,
Noticias do radar da CBN: quilométricos congestionamentos, metrôs lotados, e muita gente de volta aos lares...
Uma garoa fininha a escorrer pela mesma janela que outrora abrigara os raios do sol,
Umidade relativa do ar baixíssima, e a tosse seca, problemas respiratórios, e a tristeza, e o frio... e que frio...
A tarde se foi. Era mesmo noite de inverno. E inverno paulistano.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
A sociedade dos poetas...
Poetas mortos geram vida!
Bebe-se deles cada gole de agonia, derramado na ânsia e na vaidade do existir.
À conta-gotas suga-se, de uma vez, toda inspiração que lhes resta...
E é o suficiente para embriagar-se por vezes a fio.
Poetas aprisionados em si mesmos geram esperanças!
Acalentam sonhos e palavras únicas,
Promovem libertação pelo modo singular com que olham para a Lua em noite nublada
E por tecer versos àquela que por hora falta, mas que alta brilha...
Poetas distraídos geram alegria!
Derramam aos poucos, pé ante pé, palavras, gestos, vida nas almas alheias
Despertam o Amor em corações que sequer o esperam
Promovem catarses coletivas, seguidas ou não de crises de histeria, ou loucura
Que facilmente podem ser curadas por palavras,
Apenas tinta, papel e palavras...
Bebe-se deles cada gole de agonia, derramado na ânsia e na vaidade do existir.
À conta-gotas suga-se, de uma vez, toda inspiração que lhes resta...
E é o suficiente para embriagar-se por vezes a fio.
Poetas aprisionados em si mesmos geram esperanças!
Acalentam sonhos e palavras únicas,
Promovem libertação pelo modo singular com que olham para a Lua em noite nublada
E por tecer versos àquela que por hora falta, mas que alta brilha...
Poetas distraídos geram alegria!
Derramam aos poucos, pé ante pé, palavras, gestos, vida nas almas alheias
Despertam o Amor em corações que sequer o esperam
Promovem catarses coletivas, seguidas ou não de crises de histeria, ou loucura
Que facilmente podem ser curadas por palavras,
Apenas tinta, papel e palavras...
terça-feira, 5 de maio de 2009
Já não lanço mais canções ao vento...
Minhas notas têm destino e rumo certos: teu coração!
E te amar é acima de tudo um ato consciente,
Movimento em que se equilibram razão e emoção num ciclo sem fim
Repleto de felicidade em doses diárias de alegria!
Já não canto à Lua ou aos astros,
Meus versos têm destino e rumo certos: o meu amado!
E este amor me envolve a ponto de te alcançar da mesma forma,
E se torna único e nosso, só nosso, e dos que mais quiserem nele se espelhar
Amor maior, incondicional!
Minhas notas têm destino e rumo certos: teu coração!
E te amar é acima de tudo um ato consciente,
Movimento em que se equilibram razão e emoção num ciclo sem fim
Repleto de felicidade em doses diárias de alegria!
Já não canto à Lua ou aos astros,
Meus versos têm destino e rumo certos: o meu amado!
E este amor me envolve a ponto de te alcançar da mesma forma,
E se torna único e nosso, só nosso, e dos que mais quiserem nele se espelhar
Amor maior, incondicional!
sábado, 25 de abril de 2009
Aparências
Era uma família simples.
Pai, mãe, irmão, irmãozinho e cachorro vira-latas.
Se amavam muito. O silêncio e o respeito regiam a casa da manhã até a noite.
O pai era engenheiro elétrico,
A mãe, dona de uma loja de cosméticos, interrompera a faculdade no quarto ano por causa da gravidez do irmãozinho e nunca se formara.
O irmão estava no terceiro ano de medicina veterinária ansioso por encontrar a fórmula da juventude para o cachorro vira-latas da família.
O irmãozinho ainda era muito pequenininho, não experimentara as maravilhas do mundo acadêmico. Desfrutava apenas da companhia da babá até que a mãe chegasse do trabalho.
Todos os dias eram iguais para a família simples,
Todos eles simplesmente iguais.
Embora quase não falassem uns com os outros, devido à correria do dia a dia,
Todos se amavam muito, muito...
Pelo menos era isso que os vizinhos diziam sempre!
Pelo menos era nisso que eles insistiam em acreditar.
Pai, mãe, irmão, irmãozinho e cachorro vira-latas.
Se amavam muito. O silêncio e o respeito regiam a casa da manhã até a noite.
O pai era engenheiro elétrico,
A mãe, dona de uma loja de cosméticos, interrompera a faculdade no quarto ano por causa da gravidez do irmãozinho e nunca se formara.
O irmão estava no terceiro ano de medicina veterinária ansioso por encontrar a fórmula da juventude para o cachorro vira-latas da família.
O irmãozinho ainda era muito pequenininho, não experimentara as maravilhas do mundo acadêmico. Desfrutava apenas da companhia da babá até que a mãe chegasse do trabalho.
Todos os dias eram iguais para a família simples,
Todos eles simplesmente iguais.
Embora quase não falassem uns com os outros, devido à correria do dia a dia,
Todos se amavam muito, muito...
Pelo menos era isso que os vizinhos diziam sempre!
Pelo menos era nisso que eles insistiam em acreditar.
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